O Retrato de um País Descalço
Em 1958, Portugal era um cenário de contrastes e escassos recursos. O país rural era feito de crianças descalças, mulheres de lenço na cabeça e saias compridas, e soldados a marchar para a guerra.
Neste ambiente marcado por uma profunda falta de cultura e literacia, a Fundação Calouste Gulbenkian deu um passo histórico. Nasceu assim o Serviço de Bibliotecas Itinerantes.
A premissa não era substituir a ação do Estado, mas sim suprir uma enorme lacuna na sociedade da época. O objetivo passava por democratizar o acesso ao conhecimento e reforçar o ensino não formal nos territórios mais isolados.
As Viagens das Primeiras Citroën
O arranque oficial do projeto aconteceu em maio de 1958, em Lisboa, com a apresentação de 15 carrinhas Citroën.
O momento pioneiro contou com a presença do primeiro presidente da Gulbenkian, Azeredo Perdigão, e do então ministro da Educação Nacional, Francisco Leite Pinto. A ideia foi idealizada por Branquinho da Fonseca, que dirigiu o serviço até à sua morte, em 1974.
As regras operacionais desafiavam as convenções da época: acesso livre e direto às estantes, empréstimo domiciliário das obras e gratuitidade total.
Cada carrinha albergava cerca de dois mil livros no seu habitáculo. Qualquer cidadão podia entrar na viatura — inicialmente pintada de cinzento e mais tarde cor de tijolo —, escolher um título e levá-lo para casa até à visita seguinte da biblioteca.
Impacto Sociocultural Inédito
A chegada periódica destas carrinhas às aldeias criou um enorme impacto no país. Através das páginas, populações inteiras acederam a temas e realidades que julgavam inalcançáveis.
Maria Helena Borges, antiga diretora do serviço, sublinha que as viaturas continuam a ser o “legado incontornável” da fundação na memória coletiva portuguesa. Este acesso inédito gerou alterações de comportamento marcantes, especialmente nas crianças.
Nos anos 1990, um concurso de desenho nas escolas portuguesas expôs esta influência territorial. Enquanto os alunos de Lisboa ilustravam a estátua do fundador ou os jardins da fundação, os estudantes do resto do país desenhavam invariavelmente as carrinhas-biblioteca.

O Fim de um Ciclo e a Transição
Mais de quatro décadas volvidas, a geografia humana e as infraestruturas nacionais mudaram drasticamente. Em 2002, o programa original foi oficialmente encerrado.
O isolamento atenuou-se. A modernização da rede viária acelerou o êxodo rural para os centros urbanos, esvaziando as aldeias. Simultaneamente, as crianças passaram a passar grande parte do dia no sistema escolar fixo.
Com as bibliotecas municipais já a funcionar em pleno desde a década de 1980, havia oferta, mas a procura pelo serviço móvel tradicional desaparecera. As carrinhas e os acervos restantes foram entregues às autarquias que demonstraram interesse em mantê-los.
No momento da extinção do serviço, os números acumulados eram monumentais: as viaturas tinham entregue cerca de 97 milhões de livros a quase 29 milhões de leitores, num périplo que cobriu 3.900 povoações portuguesas.
O Novo Papel do Serviço Móvel
Apesar do fim do formato original, o lastro do projeto manteve-se intacto. O modelo reinventou-se através das dezenas de redes municipais que operam no país atualmente.
Dados recentes da Direção-Geral do Livro, dos Arquivos e das Bibliotecas (DGLAB) confirmam a resiliência desta resposta cultural. A Rede Nacional de Bibliotecas Públicas abrange 263 municípios, somando 493 espaços fixos e 70 unidades itinerantes.
As carrinhas de hoje reorientaram a sua missão. Passaram a priorizar visitas programadas a escolas, prestando um fundamental serviço social paralelo no apoio direto aos idosos.
As rotas literárias continuam a quebrar as barreiras físicas nos territórios de baixa densidade, assegurando que o apoio cultural e social chegue diretamente à porta de quem mais precisa.
