Uma Tempestade Perfeita nas Adegas
O setor vitivinícola global atravessa uma crise profunda de excesso de produção e falta de escoamento. Com o recuo de mercados de exportação fundamentais, como a China, o mundo acumula milhões de hectolitros de vinho.
Cálculos do setor indicam que o vinho atualmente armazenado a nível global seria suficiente para cobrir três anos inteiros de consumo.
Em Portugal, o alarme soa com força, trazendo de volta o debate sobre a necessidade drástica de arrancar vinhas. A região do Vale do Douro é o epicentro deste choque comercial.
Os pequenos produtores durienses, dependentes de compradores externos por não possuírem canais diretos de venda, estão a receber os piores avisos. Muitos arriscam-se a não ter quem lhes compre a produção este ano, ou a ter de aceitar preços de desespero.
O Afundanço do Vinho do Porto
O impacto financeiro no Douro é ditado pela queda vertiginosa do seu produto mais rentável. No ano 2000, as vendas totais de Vinho do Porto superavam os 10 milhões de caixas de nove litros.
Hoje, esse número caiu para apenas 7 milhões de caixas, representando uma quebra de mais de 30%. O volume também encolheu drasticamente: dos 90 milhões de litros comercializados em 2006, o mercado absorve agora apenas 62 milhões.
Em contraste, o vinho tranquilo do Douro (DOC) seguiu uma trajetória oposta, triplicando a sua produção. Os preços das duas categorias aproximaram-se de forma inédita.
Em 2006, um litro de vinho do Douro valia 3,30 euros, enquanto hoje atinge os 4,96 euros. Esta subida esbateu a diferença histórica face ao Vinho do Porto, cuja rentabilidade dependia do sistema administrativo do “benefício”, que dita as quotas de produção autorizadas por quinta.
Da Estabilidade de Salazar ao Mercado Moderno
A atual estrutura de microprodução no Douro é uma herança direta das políticas do Estado Novo. Em 1938, a Junta Nacional do Vinho popularizou o cartaz: “Beber vinho é dar pão a um milhão de portugueses”.
O objetivo de António de Oliveira Salazar não era promover o alcoolismo, mas sim garantir a estabilidade social através da fixação das populações à terra. Nessa altura, Portugal tinha 320 mil hectares de vinha divididos por 337 mil produtores.
A média era inferior a um hectare por agricultor. A política não privilegiava a qualidade, mas sim a subsistência desta enorme malha populacional, frequentemente sustentada pelas exportações cativas para Angola e Moçambique.
O setor transformou-se radicalmente após o 25 de Abril. O número de produtores caiu, o profissionalismo instalou-se e a qualidade dos vinhos portugueses atingiu padrões de excelência. Ainda assim, a dependência das estruturas antigas mantém o Vale do Douro numa posição delicada.
Novos Hábitos e o Copo no Ecrã
Apesar da crise de escoamento, Portugal mantém-se próximo da liderança mundial no consumo de vinho per capita. Ao contrário do que se verifica em França, Espanha e Itália, os portugueses continuam a beber muito vinho.
O desafio a longo prazo reside nas novas gerações. Os jovens estão a alterar os seus hábitos, substituindo o vinho por outras bebidas alcoólicas, muitas vezes mais fortes, em contextos de diversão noturna.
Curiosamente, a cultura pop contemporânea encontrou um novo papel social para o vinho. Nas séries de televisão atuais, é frequente ver as personagens chegarem a casa e servirem imediatamente um copo de vinho.
Esta tendência tem uma explicação técnica na indústria do entretenimento. Com as pesadas restrições à representação de tabaco nos ecrãs, o copo de vinho resolveu um dos maiores desafios da representação moderna: dar aos atores algo para fazer com as mãos durante os diálogos.
