O Fim da Linha para o Grande Lago
Quatro anos após o leilão para o solar flutuante em Portugal, o cenário é de paralisia. Nenhuma das seis centrais adjudicadas está a operar e apenas uma conseguiu luz verde ambiental.
A mais recente vítima deste impasse é a central híbrida do Grande Lago. Tratava-se do projeto mais ambicioso do país, liderado pela EDP Renewables, que ocuparia o espelho de água do Alqueva.
A promotora decidiu abandonar o investimento de 169 milhões de euros. A desistência resulta de uma tempestade perfeita: obstáculos ambientais impostos pela Agência Portuguesa do Ambiente (APA) e a perda de rentabilidade económico-financeira.
O Chumbo da Agência Portuguesa do Ambiente
O golpe final surgiu quando a APA declarou a “desconformidade” do Estudo de Impacte Ambiental (EIA), entregue pela EDP em 2024. O projeto caiu antes sequer de chegar à fase de consulta pública.
O conflito centrou-se nas alterações introduzidas pela EDP para ligar dois núcleos eólicos. A empresa propôs um corredor alternativo de linha elétrica mista a 30 kV, argumentando que o traçado inicial era incompatível com ninhos de abutres pretos.
De acordo com o processo, a monitorização desta colónia de abutres iniciou-se apenas em junho de 2025. A comissão de avaliação chumbou a alteração, alegando que faltava uma monitorização anual completa para validar os reais impactos.
Conflito de Prazos e Lacunas no Estudo
Para salvar o projeto, a EDP pediu uma extensão de prazo até 30 de setembro de 2026 para concluir o ciclo anual de monitorização dos abutres. A APA recusou categoricamente.
A agência justificou que isso suspenderia o processo por mais de um ano e meio. Entre a submissão do estudo e a resposta final decorreriam dois anos, o que poderia colocar em causa a atualidade de toda a informação recolhida entre 2022 e 2024.
Além dos abutres, o estudo apresentava falhas na avaliação de outras espécies protegidas, como a águia-bonelli e a cegonha preta. Foram também detetadas insuficiências no levantamento da flora afetada pelos corredores elétricos, nomeadamente sobreiros, azinheiras, pinheiros mansos e eucaliptos.
Um Projeto Inovador e de Preços Negativos
O lote ganho pela EDP no Alqueva garantia uma capacidade de injeção de 70 MW na rede de muita alta tensão da REN. A central híbrida combinaria produção eólica em terra e solar na água.

A infraestrutura abrangeria os concelhos de Portel, Vidigueira, Reguengos de Monsaraz e Moura. Os 16 aerogeradores (divididos em dois núcleos de 9 e 7) gerariam 72 MVA, enquanto os painéis fotovoltaicos ocupariam 82 hectares de água — apenas 0,33% da albufeira.
A central destacava-se no leilão de 2021 pela proposta financeira agressiva. A EDP ofereceu um preço negativo de 4,12 euros por megawatt para a componente fotovoltaica durante os primeiros 15 anos da concessão. Este valor, considerado na altura a tarifa mais baixa do mundo, faria os consumidores pouparem cerca de 114 milhões de euros.
O Efeito Dominó do Leilão de 2021
O caso do Alqueva não é isolado. A passagem dos projetos de solar flutuante do papel para o terreno revelou-se um fracasso generalizado a nível nacional.
A Finerge viu chumbadas as centrais de Paradela e Salamonde, no Parque Nacional da Peneda Gerês. O Instituto da Conservação da Natureza e das Florestas (ICNF) emitiu pareceres negativos por considerar tratar-se de novos empreendimentos, e não meros complementos hidroelétricos.
Mais a sul, na barragem do Cabril, o projeto da Voltalia colapsou devido à forte oposição de cidadãos e autarquias locais, que temiam impactos na paisagem e no turismo. Até ao momento, apenas o projeto da Endesa no Alto Rabagão (42 MW) obteve autorização ambiental.
Alternativas Rejeitadas e a Posição do Setor
O Governo tentou recentemente travar a fuga de investidores. Um despacho da ministra Maria da Graça Carvalho permitiu aos promotores transferir a potência flutuante para projetos solares terrestres, mantendo a capacidade de injeção na rede.
A EDP rejeitou esta via para o Alqueva. A empresa aponta os elevados custos atuais de desenvolvimento das renováveis e a forte descida dos preços no mercado grossista de eletricidade. Além disso, uma nova central em terra exigiria complexas avaliações de impacto cumulativo com projetos vizinhos, como o da Lightsource BP.
Para a Associação de Energias Renováveis (APREN), o problema não é tecnológico. A associação recorda os projetos pioneiros de sucesso no Alto Rabagão e no próprio Alqueva, bem como centrais comerciais de grande escala nos Países Baixos, França e Bélgica.
“Os reveses registados em alguns projetos de solar flutuante em Portugal devem, por isso, ser analisados sobretudo de uma perspetiva processual e de planeamento”, defende a APREN. A entidade alerta que o licenciamento em Portugal tem de ser ágil e previsível para garantir a transição energética sem afugentar o investimento.
