Nunca pertenci ao clube dos madrugadores. Durante a adolescência e a juventude no desporto de competição, evitava ao máximo os treinos de madrugada.
Na transição para o horário de escritório de segunda a sexta-feira, o exercício noturno tornou-se a regra. Preferia treinar ao final do dia, longe da obrigação de interromper o sono profundo.
Como notívaga assumida e paciente com doença de Lyme — uma condição que provoca episódios de fadiga extrema —, acordar cedo sempre foi uma batalha. No entanto, a ciência tem vindo a sublinhar as enormes vantagens dos treinos matutinos.
Um estudo de 2024 publicado no Journal of Health Psychology associa a exposição matinal ao sol a uma melhor qualidade de sono. Outra investigação de 2023, do Journal of Physiology, conclui que o exercício logo pela manhã melhora a regulação da pressão arterial e a saúde metabólica global.
Para testar se a teoria compensava o cansaço prático, impus-me um desafio: treinar todas as manhãs ao amanhecer durante uma semana.
O desafio da primeira hora
O plano era simples mas exigente. Alternei corridas de seis a onze quilómetros com aulas de treino de força, sabendo que pagar por uma aula seria um fator de responsabilidade acrescido.
Acordar foi, de longe, o obstáculo maior. Como o meu corpo não teve tempo suficiente para se adaptar ao novo ritmo circadiano numa única semana, o despertador às 6h00 foi doloroso.
Para conseguir sair da cama, recorri à regra viral dos 5 segundos de Mel Robbins. Contar de cinco até zero de forma decrescente e saltar da cama funcionou de forma surpreendente, eliminando a margem para hesitações matinais.
As vantagens inesperadas da madrugada
A recompensa foi muito além da condição física. Acordar antes do sol nascer proporcionou uma sensação de liberdade incomum e a ilusão de que o dia ganhou horas extra.

Apesar do movimento madrugador da cidade — profissionais de fato a caminho do trabalho às 7h00 e o cheiro a pastelaria fresca —, as manhãs traziam uma calma rara. Para uma mente constantemente acelerada pelo PHDA, esse silêncio ofereceu um descanso mental profundo.
A rotina também devolveu tempo para um pequeno-almoço real. Em vez de engolir uma tosta à pressa, passei a caminhar 20 minutos até ao escritório para desfrutar de papas de aveia e ovos com calma.
Foco imediato e combate à névoa mental
Viver com a doença de Lyme significa lidar com uma espécie de névoa mental constante. Habitualmente, precisava de uma hora e de uma chávena inteira de café para começar a funcionar a nível cognitivo no trabalho.
O treino matinal dissipou essa névoa de forma quase instantânea. A ciência valida esta experiência: um estudo de 2021 no Journal of Clinical Medicine confirmou que o exercício melhora de facto a memória e a concentração.
A diferença no meu humor, energia e agilidade mental nas primeiras horas do dia foi drástica e inegável.
Estratégias para notívagos passarem a treinar cedo
Mudar uma rotina enraizada exige estratégia, sobretudo para quem tem o hábito de adormecer tarde. Se quer fazer a transição para as manhãs, estes são os passos essenciais:
- Visualizar o objetivo: Ter um propósito claro facilita o processo, seja combater o stress ou preparar uma prova. A conselho de uma tia que faz provas de Ironman, coloquei a minha meta no ecrã do telemóvel e deixei um lembrete no espelho da casa de banho.
- Preparar tudo na véspera: O sucesso do treino decide-se na noite anterior. Deixar a roupa preparada, programar a máquina de café e ter um lanche rápido (uma banana ou barra de proteína) à mão impede as desculpas de última hora.
- Assumir um compromisso com terceiros: Saber que alguém espera por nós é o despertador mais eficaz. Ao garantir ao meu clube de corrida que estaria na West Side Highway às 6h30 da manhã, fechei a porta a qualquer possibilidade de desistência.
- Definir metas realistas: Uma semana serve de teste, mas criar um hábito duradouro leva tempo. Assuma um compromisso inicial de apenas duas semanas para não tornar a mudança de estilo de vida demasiado avassaladora.
Mudar de estilo de vida gera sempre algum desconforto e receio. Assumir que o processo é naturalmente difícil é o primeiro passo mental para o conseguir ultrapassar.
