O envelhecimento populacional é o principal problema da Europa e exige um debate estruturado, longe da sede de aprovação imediata das redes sociais. O aviso foi deixado por Paulo Portas durante uma intervenção de mais de duas horas na Universidade de Verão do PSD, em Castelo de Vide.

Paulo Portas durante a sua intervenção na Universidade de Verão do PSD.
Demografia exige medidas a longo prazo
O antigo vice-primeiro-ministro alertou que a inversão do declínio demográfico demora décadas e implica alinhar diversas políticas públicas. Habitação, impostos, trabalho, família e migrações têm de ser pensados em conjunto.
“Queremos começar a discutir o problema do envelhecimento das nossas sociedades com cabeça, tronco e membros e com argumentos racionais, ou queremos ‘likes’ e radicalismos?”, questionou a audiência, garantindo que a demografia não se resolve com publicações rápidas na internet.
Apesar de focar a lente na dimensão europeia, Portas evitou abordar o atual debate nacional sobre a sustentabilidade da Segurança Social.
A fatura civil para as plataformas digitais
Durante a aula intitulada “O que vai por esse mundo?”, a impunidade das grandes tecnológicas mereceu duras críticas. Portas antecipou que o tempo da falta de escrutínio no mundo digital está a chegar ao fim.
Em alternativa à mera restrição de idade — numa altura em que o Parlamento português debate um projeto-lei do PSD para limitar o acesso a redes sociais a menores de 16 anos —, o comentador defende a responsabilização judicial. A submissão à justiça civil e penal é apontada como a ferramenta mais eficaz.
Para o antigo líder do CDS-PP, o que verdadeiramente afeta estas empresas “é o dinheiro que deixam de ganhar à custa da vida de outros”.
A fatura energética e os alertas de Ceuta
A energia ocupou o segundo lugar no topo das ameaças europeias enumeradas por Portas. Sem reservas de petróleo ou gás, o continente enfrenta um cenário de alta vulnerabilidade, agravado pela saída do Reino Unido do bloco comunitário.
A invasão da Ucrânia e o aumento de 30% nos preços energéticos provocado pelo conflito no Médio Oriente demonstraram o risco de depender da instabilidade geopolítica. A solução passa por uma aposta exclusivamente técnica nas fontes renováveis, rejeitando dogmas partidários.
“Não ponham a ideologia no meio de questões técnicas, isto então torna-se tóxico”, frisou. Para ilustrar o valor da moderação e do pragmatismo político, apontou o parlamento galego como exemplo, por ser o único em Espanha sem representação do Podemos ou do Vox.
Na vertente migratória, a recente tensão nas fronteiras de Ceuta serviu como caso de estudo. Portas atribuiu parte da crise à regularização massiva de 1,2 milhões de imigrantes ilegais por Espanha e ao papel subterrâneo das redes sociais, mobilizando fluxos que surpreenderam tanto Madrid como Rabat.
A sessão encerrou com referências à sua nomeação como comissário-geral para as Comemorações dos 900 anos da Fundação de Portugal. Ironizando sobre a história do país, sublinhou que há nove séculos a dicotomia entre esquerda e direita não existia, o que evitou perder tempo em discussões ideológicas durante a construção do território nacional.
