Obras num campo de futebol revelam massacre romano esquecido pela História

Esqueletos humanos e ossadas sobrepostas descobertas numa escavação arqueológica em Viena.

Operários que renovavam um campo de futebol no bairro de Simmering, em Viena, tropeçaram num dos maiores mistérios da Europa Central. Sob o relvado do clube Ostbahn-XI, na rua Hasenleitengasse, escondia-se uma vala comum com os restos mortais de 129 combatentes.

A descoberta ocorreu em outubro de 2024. Após meses de escavações e análises laboratoriais, o Wien Museum revelou o achado em abril de 2025. Trata-se do rescaldo de uma batalha sangrenta sobre a qual nenhum texto antigo faz qualquer menção.

O caos de um enterro improvisado

O espaço exumado é minúsculo face à magnitude da carnificina. Os arqueólogos retiraram 129 esqueletos completos e parciais de uma vala rasa com apenas cinco metros de comprimento por quatro e meio de largura. Ossadas extraídas das imediações sugerem que o número inicial de mortos rondaria os 150.

A disposição dos corpos aponta para um enterro apressado e caótico. Os cadáveres foram empilhados em até quatro camadas, sem qualquer orientação, com os membros totalmente emaranhados. A ausência de sedimentos entre os corpos prova que foram todos depositados num único evento, numa tentativa urgente de os esconder antes que apodrecessem ao ar livre.

Esta realidade contraria de forma flagrante os rigorosos costumes fúnebres romanos. Kristina Adler-Wölfl, responsável pela arqueologia da cidade de Viena, sublinha que por volta do ano 100 d.C. a cremação era a norma incontestável. Encontrar um amontoado de inumações em vez de urnas de cinzas é uma anomalia arqueológica.

Marcas de uma violência extrema

A ciência descarta imediatamente a hipótese de epidemia. A análise bioarqueológica revelou um perfil demográfico demasiado homogéneo para ser obra de uma doença: todos os indivíduos eram homens, com idades compreendidas entre os 18 e os 35 anos.

Pelo menos dois terços apresentavam sinais de trauma violento provocado por armas de corte, golpes contundentes e projéteis. Cada um dos esqueletos exibia, no mínimo, um ferimento infligido pouco antes da morte, traçando o retrato de uma tropa aniquilada em combate.

Os artefactos militares encontrados no local cimentam este cenário de guerra. Os arqueólogos recolheram um punhal com incrustações de prata, fragmentos de armadura de escamas, a jugular de um capacete e os inconfundíveis pregos das solas das caligae, as típicas sandálias militares romanas. A brutalidade do confronto ficou cravada na ossada de um dos guerreiros, que foi encontrado com a ponta de uma lança ainda alojada na bacia.

A batalha que Roma não registou

O mais insólito desta descoberta é o silêncio histórico em torno do evento. Não existe uma única fonte literária ou evidência arqueológica anterior que documente um confronto na zona de Hasenleitengasse.

Ainda assim, a datação por radiocarbono encaixa perfeitamente numa fase de tensão bélica nas margens do Danúbio. Os investigadores apontam como possível cenário as campanhas do imperador Domiciano, ocorridas entre 86 e 96 d.C., embora faltem provas diretas que liguem os defuntos a esse conflito.

Michaela Binder, diretora da escavação, destaca que o achado é inédito à escala de todo o Império Romano. A arqueóloga nota que na Alemanha existem vastos campos de batalha repletos de armas abandonadas, mas encontrar os próprios corpos dos combatentes mortos é um facto único.

A fundação militar de Viena

Este massacre local não tem apenas valor bélico; pode ser a chave para compreender a génese da própria capital austríaca. Como primeira prova material de combate pesado na região, a derrota pode ter sido o catalisador que motivou a expansão de uma pequena base local para o grande acampamento legionário de Vindobona, localizado a menos de sete quilómetros dali.

Veronica Kaup-Hasler, vereadora da cultura e ciência da autarquia vienense, salienta o entusiasmo de verificar como o legado romano continua omnipresente. A responsável lembra que Vindobona colocou a pedra basilar da cidade, sendo comum tropeçar em vestígios assim que se escava o solo urbano.

O mistério principal continuará sob investigação. Um novo projeto internacional recorrerá a análises de ADN e isótopos para rastrear a origem destes soldados. Resta saber se eram legionários romanos massacrados por tribos germânicas, ou guerreiros germânicos aniquilados por Roma. Até ao momento, apenas uma das 129 vítimas pôde ser inequivocamente identificada como um combatente romano.

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