As lampreias-marinhas não ganharam a sua reputação de “vampiras” por acaso. Com a boca em forma de ventosa e fileiras de dentes afiados, estes parasitas fixam-se nos peixes e sugam-lhes a vida, deixando apenas uma carcaça vazia. Cada indivíduo pode consumir cerca de 18 kg de peixe num período de 12 a 18 meses, e uma única fêmea é capaz de depositar 100.000 ovos. O resultado é uma crise ambiental que ameaça os Grandes Lagos.
Um inimigo que une Washington
Recentemente, políticos norte-americanos receberam uma visita inusitada no Capitólio: exemplares vivos de lampreias. O objetivo era claro: lembrar os decisores políticos de que a ameaça é real e persistente. Num Congresso frequentemente paralisado por divisões, a luta contra as lampreias tornou-se um raro ponto de consenso bipartidário.
“Nunca me deparei com uma questão que unisse tanto as pessoas como esta”, afirma Greg McClinchey, da Comissão das Pescas dos Grandes Lagos (GLFC). A comissão, criada por um tratado entre os EUA e o Canadá em 1954, coordena o combate a esta espécie que entrou no sistema no século XIX e devastou populações de truta e salmão.
Especialista da GLFC com amostras recolhidas nos Grandes Lagos.
A estratégia de sobrevivência
O controlo populacional depende fortemente do TFM, um composto químico desenvolvido em 1957 que elimina as larvas da lampreia sem afetar as espécies nativas. No entanto, a pandemia de COVID-19 interrompeu estes tratamentos, resultando num aumento de 300% na população de lampreias em certas zonas.
“Aqui no escritório, chamamos-lhe a ‘experiência proibida’”, explica McClinchey. A GLFC estima que o surto populacional durante a pandemia causou prejuízos de 2 mil milhões de dólares ao setor piscatório, que emprega 75.000 pessoas. Atualmente, os números já voltaram aos níveis pré-pandémicos, mas a vigilância permanece máxima.
Trabalho de campo da equipa da GLFC nos afluentes.
Técnicos a realizar monitorização de populações de lampreia.
Inovação tecnológica e novas ameaças
Para além dos tratamentos químicos, a comissão aposta em novas barreiras físicas e sistemas automáticos, como o projeto “FishPass”. Este canal, em construção no rio Boardman, utiliza reconhecimento de formas por vídeo para filtrar lampreias enquanto permite a passagem de peixes nativos.
Contudo, a lampreia é apenas uma de 186 espécies invasoras no sistema. Os mexilhões-zebra e os mexilhões-quagga representam um desafio ainda mais complexo, alterando a cadeia alimentar e contribuindo para a proliferação de algas tóxicas.
Está em curso um projeto de lei bipartidário, a “Lei para a Salvaguarda dos Peixes dos Grandes Lagos de 2025”, que propõe um investimento de 500 milhões de dólares ao longo de uma década para combater estas ameaças. O deputado Bill Huizenga sublinha que a proteção destas águas é uma prioridade que transcende ideologias, sendo essencial para a economia e o abastecimento de água de milhões de pessoas.
A determinação da comissão permanece inabalável. Como afirma McClinchey, o fracasso não é uma opção, pois o custo da inação para este ecossistema vital é demasiado elevado.



