De Nanosatélites ao 5G: O Futuro da Tecnologia Espacial Portuguesa Nasce em Oeiras

Investigador português a trabalhar com componentes de um pequeno satélite CubeSat no laboratório em Oeiras.

O Berço da Nova Geração Espacial Portuguesa

Tocar o espaço com tecnologia portuguesa é hoje uma realidade construída num laboratório de 20 metros quadrados em Oeiras. No complexo universitário do Taguspark, o Instituto Superior Técnico (IST) está a formar a nova geração da indústria aeroespacial.

No centro desta revolução está o IST NanoSatLab. João Paulo Monteiro, investigador no Instituto de Sistemas e Robótica (ISR Lisboa) e professor auxiliar convidado do IST, coordena este núcleo provisório onde a falta de experiência profissional dos alunos se transformou na maior força motriz do projeto.

A energia acadêmica abriu portas a um ecossistema colaborativo sem precedentes. O laboratório cruzou competências de Engenharia Aeroespacial, Eletrotécnica e de Computadores, garantindo ainda apoios vitais de empresas e instituições como a LusoSpace, a ANACOM e o Instituto Português da Qualidade.

ISTSat-1: O Primeiro Universitário Português em Órbita

O resultado prático deste esforço multidisciplinar está no espaço desde 9 de julho de 2024. O ISTSat-1, o primeiro satélite universitário português, foi colocado em órbita baixa terrestre ao abrigo do programa Fly Your Satellite! da Agência Espacial Europeia (ESA).

Trata-se de um CubeSat 1U, um aparelho incrivelmente compacto que mede apenas 10 x 10 x 10 centímetros. A sua missão é tão pequena no tamanho quanto ambiciosa no impacto: monitorizar aviões através do oceano.

O equipamento foi desenhado para testar a viabilidade dos nanossatélites na receção de sinais ADS-B, um sistema de vigilância aérea que regista a velocidade e altitude das aeronaves em zonas cegas. Este sistema funciona como um complemento ao Radar de Vigilância Primária (PSR) e prepara o futuro da monitorização global.

Dois anos após a sua idealização inicial, o ISTSat-1 opera com total “saúde”. João Paulo Monteiro destaca o feito: “Aquilo que nós mostramos com o ISTSat-1 é que é possível fazer isto com uma tecnologia muito mais eficiente em termos energéticos e computacionais.” O CubeSat português executa tarefas que, até agora, exigiam sistemas de alto custo.

O Salto para o 5G Espacial

Longe de dar o trabalho por terminado, a equipa do IST NanoSatLab avança agora para a quebra de um novo paradigma. Em parceria com a Altice Labs, os investigadores portugueses estão a desenvolver um Nanosatélite 5G.

De Nanosatélites ao 5G: O Futuro da Tecnologia Espacial Portuguesa Nasce em Oeiras

Esta missão inverte a lógica tradicional das comunicações espaciais. Em vez de operar como uma estação recetora de dados de sensores terrestres, o próprio satélite irá comportar-se como um utilizador direto da rede móvel.

“Nós conseguimos fazer o equivalente a meter um cartão SIM no satélite e o satélite passar a estar ligado à rede 5G terrestre, com a vantagem de que toda a infraestrutura já está montada”, explica o investigador. Com um modem 5G a bordo, o aparelho acede à internet utilizando a arquitetura que já serve a Terra.

Questionado sobre possíveis aplicações na área da Defesa, João Paulo Monteiro esclarece que o foco é primordialmente civil. O objetivo central é alargar horizontes, garantindo uma capacidade ímpar para a descarga de grandes volumes de dados a partir de satélites minúsculos.

O Grande Desafio: Sobreviver ao Calor

Levar o 5G para o espaço esbarra, no entanto, num problema físico incontornável: a dissipação térmica. Tal como um telemóvel sobreaquece e chega a desligar-se após longos períodos de processamento de dados, um satélite enfrenta o mesmo stress contínuo e ampliado.

Para processar os milhões de megabytes exigidos pela rede 5G, o hardware necessita de converter ondas eletromagnéticas e impulsos elétricos a uma velocidade alucinante. Esta sobrecarga gera temperaturas extremas num ambiente onde o arrefecimento é altamente complexo.

“O desafio não é apenas comunicar. É conseguir manter os equipamentos vivos em órbita”, conclui João Paulo Monteiro, definindo a próxima barreira que a tecnologia portuguesa terá de ultrapassar.

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