O esquema dos 10 milhões de dólares
Um grande júri estadual concluiu que a administração do governador Ron DeSantis desviou 10 milhões de dólares de dinheiros públicos. A verba, proveniente de um acordo judicial da área da saúde, foi canalizada para a Fundação Hope Florida.
O relatório, mantido sob sigilo até agora, descreve a operação como “um esquema sofisticado para financiar atividades políticas”. O dinheiro deveria ter sido utilizado para garantir seguro de saúde a crianças carenciadas.
Em vez disso, os fundos transitaram rapidamente por várias organizações até aterrarem nas contas de dois comités de ação política (PAC) e do Partido Republicano da Flórida. O objetivo final foi financiar, em 2024, a campanha contra a Emenda 3, uma iniciativa de cidadãos para legalizar a canábis no estado.
Apesar de confirmar o desvio, o grande júri assumiu que não há provas suficientes para avançar com acusações criminais. “Ninguém assume a responsabilidade pela decisão de enviar os 10 milhões para a Hope Florida”, lê-se no documento.
O centro da operação
Capa do relatório do grande júri sobre a investigação aos fundos estatais.
Os investigadores identificaram o atual procurador-geral da Flórida, James Uthmeier, como o principal elo de ligação em grande parte desta atividade. À data dos factos, Uthmeier era o chefe de gabinete do governador DeSantis.
Segundo o testemunho recolhido, Uthmeier esteve envolvido no reencaminhamento do dinheiro após a sua chegada à Hope Florida. O principal beneficiário da maioria dos fundos foi o PAC Keep Florida Clean, liderado pelo próprio Uthmeier.
Antes de o relatório ser finalizado, Uthmeier desvalorizou a investigação, afirmando em abril que “ninguém fez nada de errado”. A antiga procuradora-geral, Ashley Moody, e o governador Ron DeSantis também não testemunharam perante o grande júri em Tallahassee.
Acordo aprovado à pressa
A origem do dinheiro remonta a 2021, quando se descobriu que a gigante da saúde Centene cobrou em excesso ao estado da Flórida por medicamentos. A dívida estava calculada em pouco mais de 67 milhões de dólares.
Enquanto outros estados afetados resolveram os seus casos, a Flórida ignorou o processo durante três anos. Em setembro de 2024, a administração estadual exigiu uma resolução imediata, mas com uma nova condição.
Em vez de devolver a totalidade da verba aos contribuintes, o estado exigiu que 57 milhões fossem para os cofres públicos e 10 milhões diretamente para a Fundação Hope Florida, uma organização ligada à primeira-dama Casey DeSantis.
O então secretário da Agência de Administração de Cuidados de Saúde (AHCA), Jason Weida, justificou os 10 milhões como um “bónus”. O grande júri rejeitou frontalmente esta explicação, sublinhando que o montante era parte integrante das indemnizações devidas aos contribuintes.

O caos dos furacões como cortina de fumo
O relatório sugere que a administração DeSantis aproveitou o caos gerado por dois furacões mortais — Helene e Milton — para ocultar a transferência de fundos. O acordo com a Centene foi assinado a 27 de setembro, um dia após o furacão Helene atingir a costa.
Cassandra Pasley, chefe de gabinete do Departamento de Saúde, assinou o documento no Centro de Operações de Emergência, admitindo aos investigadores que nunca tinha visto o acordo antes. A pressa justificou-se com a proximidade das eleições, que decorreriam dali a 45 dias.
O antigo presidente da Fundação Hope Florida, Joshua Hay, testemunhou que aprovou o envio dos 10 milhões para dois comités políticos sem fazer perguntas, assumindo que o dinheiro se destinava a apoiar as vítimas dos furacões. “O caminho para o inferno está pavimentado de boas intenções”, desabafou perante o júri.
O circuito final do dinheiro
A 4 de outubro de 2024, a Centene transferiu os 10 milhões para a Fundação Hope Florida. Dias depois, em plena crise do furacão Milton, a fundação aprovou duas subvenções de 5 milhões de dólares cada para as organizações Secure Florida’s Future e Save Our Society from Drugs.
Menos de uma semana após receberem os fundos, estas duas entidades transferiram um total de 8,5 milhões de dólares para o PAC de James Uthmeier, o Keep Florida Clean. As candidaturas iniciais destas organizações garantiam que o dinheiro não seria usado para fins políticos.
A partir do comité de Uthmeier, o rasto financeiro revela que 7 milhões de dólares foram injetados no Partido Republicano da Flórida, com mais 1,23 milhões a seguirem para outro comité político também presidido por Uthmeier.
Ausência de controlo
O grande júri concluiu que os responsáveis pelas negociações com a Centene não impuseram qualquer restrição ao uso do dinheiro. A falta de supervisão permitiu a utilização de dinheiros públicos num esquema partidário.
Como medida corretiva, os investigadores recomendaram à Assembleia Legislativa da Flórida a aprovação de uma lei que obrigue o depósito de qualquer verba recebida pelo estado diretamente no Fundo Geral. O relatório exige também consequências reais para quem violar esta regra.
DeSantis, questionado recentemente sobre o caso, recusou qualquer envolvimento direto na negociação do acordo. No entanto, garantiu estar “muito satisfeito com a forma como tudo foi feito”, classificando toda a polémica como um embuste.

