O Surto Mais Rápido de Sempre
A epidemia de Ébola provocada pelo vírus Bundibugyo na República Democrática do Congo (RDC) mantém-se como uma Emergência de Saúde Pública de Âmbito Internacional. A decisão da Organização Mundial da Saúde (OMS) decorre da escalada de um surto que já infetou 5.514 pessoas e causou 2.642 mortos.
Com uma taxa de mortalidade de 47,9%, a situação no terreno é catastrófica. A organização Médicos Sem Fronteiras (MSF) reporta que, na última semana analisada, registou-se um óbito a cada meia hora.
Tedros Adhanom Ghebreyesus, diretor-geral da OMS, foi perentório ao abrir a segunda reunião do Comité de Emergência. “A epidemia está longe de estar sob controlo”, afirmou, sublinhando que esta é a segunda maior epidemia de Ébola da história e a que se propaga com maior velocidade.
Mortes Silenciosas e Fora do Radar
O vírus já atingiu 57 zonas de saúde em seis províncias congolesas, incluindo Ituri e Kivu do Norte e do Sul. No entanto, o maior motivo de alarme para a OMS não são apenas os números oficiais, mas sim o local onde as vítimas estão a sucumbir.
Mais de 60% dos óbitos ocorrem em casa ou nas comunidades, longe dos centros de tratamento. Segundo Tedros, cada morte não registada em ambiente clínico representa uma cadeia de transmissão desconhecida, impossível de rastrear e travar.
Javid Abdelmoneim, presidente internacional da MSF, corrobora a gravidade da falha no rastreio. A epidemia avança mais depressa do que a capacidade de resposta das equipas de saúde, que enfrentam um cenário agravado por conflitos armados, fome e deslocações forçadas.
Risco Baixo para Portugal, Alto para Vizinhos
Para os países não fronteiriços, incluindo Portugal e o resto da Europa, o risco de surto é classificado pela OMS como “baixo”. Apesar da extrema gravidade na RDC, não existem razões que justifiquem o encerramento de fronteiras ou a suspensão de voos internacionais.

Ainda assim, a importação pontual de casos é uma realidade possível, como demonstrou o caso de um viajante que transportou o vírus para França em julho. As autoridades de saúde portuguesas e europeias devem manter a capacidade de detetar e isolar rapidamente passageiros com sintomas compatíveis nos 21 dias após o regresso das zonas afetadas.
Em contraste, o risco para as nove nações vizinhas da RDC — como Angola, Ruanda e Tanzânia — é “alto”. O Uganda, contudo, é apontado pela OMS como um caso de sucesso por ter conseguido travar as cadeias de transmissão após os primeiros contágios.
Corrida Contra o Tempo e Novas Vacinas
A OMS reforça que fechar fronteiras apenas atrasa a resposta sanitária, sem travar o vírus. A estratégia exige o reforço de laboratórios, equipas de resposta rápida e comunicação direta com as populações locais.
No campo científico, dois novos testes clínicos com vacinas específicas para a estirpe Bundibugyo acabam de arrancar, marcando um passo inédito no combate a este subtipo do vírus.
Paralelamente, 70 mil doses da vacina Ervebo, aprovada contra a estirpe Zaire, foram enviadas para a RDC. Destas, 50 mil destinam-se a proteger os profissionais de saúde na linha da frente, enquanto 20 mil integram um estudo de fase 3 para avaliar se oferecem proteção cruzada contra o vírus Bundibugyo.
O Médico Responde
O Comité de Emergência da OMS voltará a avaliar a evolução do surto no prazo máximo de três meses, podendo antecipar a reunião caso a situação exija novas diretrizes globais.

