O Segredo da Idade do Gelo: Análise de ADN Revela que Humanos Caçavam Principalmente Mamutes Fêmeas

Fósseis e presas de um mamute lanudo num campo de escavação arqueológica na neve.

Um novo estudo sobre mamutes lanudos alterou a compreensão científica sobre as estratégias de caça dos humanos durante a Idade do Gelo. A análise de ADN antigo de mais de 500 exemplares revelou que os caçadores selecionavam deliberadamente as fêmeas da espécie.

Publicada na revista científica Current Biology, a investigação envolveu uma equipa internacional que estudou os dados genómicos de 521 mamutes. Deste total, 448 genomas foram sequenciados pela primeira vez.

Os resultados mostraram um contraste estatístico evidente. Em ambientes naturais, 66% dos vestígios pertenciam a machos e apenas 34% a fêmeas. Contudo, nas jazidas arqueológicas associadas à atividade humana, a proporção inverteu-se radicalmente: cerca de 70% dos restos eram de fêmeas.

O Enigma da Preferência pelas Fêmeas

Os mamutes eram um recurso vital para as populações da Idade do Gelo. As tribos não dependiam apenas da carne e da gordura, utilizando também peles, ossos e presas para construir abrigos, fabricar ferramentas e criar ornamentos.

Os investigadores trabalham atualmente com duas hipóteses principais para explicar o abate preferencial de fêmeas. A primeira baseia-se na anatomia: sendo ligeiramente mais pequenas que os machos, as fêmeas poderiam ser alvos mais fáceis de caçar.

A segunda explicação centra-se na estrutura social dos mamutes lanudos. Os cientistas acreditam que estes animais organizavam-se de forma semelhante aos elefantes modernos, formando manadas lideradas por fêmeas adultas e compostas por crias jovens.

Estes grupos familiares poderiam ser mais fáceis de localizar e seguir nas paisagens geladas da época. No entanto, a caça estava longe de ser pacífica, uma vez que as fêmeas teriam oferecido uma defesa feroz e ativa das suas crias.

O Segredo da Idade do Gelo: Análise de ADN Revela que Humanos Caçavam Principalmente Mamutes Fêmeas

Marcas de Caça na Europa e Sibéria

Para chegar a estas conclusões, a equipa analisou 421 restos dispersos pela Eurásia e América do Norte. A estes juntaram-se 100 exemplares provenientes de 11 jazidas com grandes acumulações de ossos geradas por humanos.

Estes locais de abate têm uma antiguidade estimada entre 20.000 e 30.000 anos. Encontram-se localizados sobretudo na Europa Central, na Europa Oriental e no noroeste da Sibéria.

Em jazidas como Kraków Spadzista e Mus-Khaya, as provas físicas são inegáveis. Os arqueólogos descobriram pontas de projétil cravadas nos ossos e marcas de corte que atestam o processamento intencional das carcaças.

O cientista David Díez del Molino, do Centro de Paleogenética da Universidade de Estocolmo, sublinhou que ainda são necessários mais dados para compreender totalmente os fatores culturais e ambientais desta seleção.

O próximo passo da investigação passará por cruzar o ADN antigo com informações isotópicas e arqueológicas. O objetivo da equipa é conseguir reconstituir com maior precisão os movimentos migratórios e a dieta dos mamutes.

Loading...
Jardim Principes