O Plano de 442 Milhões de Libras para Tirar os Sem-Abrigo Ingleses das Ruas até ao Natal

Pessoas a dormir na rua com cobertores e pertences numa artéria urbana britânica.

O primeiro-ministro britânico, Andy Burnham, comprometeu-se a oferecer alojamento a todos os que dormem nas ruas de Inglaterra durante este inverno. A promessa central, assumida quando tomou posse em julho, tem uma meta clara: tirar todas as pessoas da rua até ao Natal.

A estratégia conta com um pacote governamental de 442 milhões de libras (cerca de 525 milhões de euros), que inclui 102 milhões em novos financiamentos. O dinheiro destina-se a garantir alojamento de emergência imediato para combater o frio intenso que se aproxima.

O legado da pandemia e a habitação permanente

Burnham quer replicar o modelo do “Everyone In”, um programa de emergência criado em março de 2020 durante a pandemia de Covid-19. Esse esquema retirou cerca de 37.000 sem-abrigo das ruas, realojando-os em hotéis e infraestruturas temporárias.

Dados da organização Shelter indicam que um quarto destas pessoas conseguiu encontrar posteriormente habitação estável por, pelo menos, seis meses. “Conseguimos na pandemia. Podemos conseguir de novo, mas precisamos de todos”, apelou Burnham.

Para lá do apoio imediato, o financiamento deverá assegurar a construção de mais de 1.000 habitações definitivas nos próximos três anos. Haverá ainda um “apoio intensivo e contínuo” focado em serviços psiquiátricos e no tratamento de dependências de álcool e drogas.

As novas diretrizes governamentais sublinham a urgência de proteger as mulheres sem-abrigo. Estas estão frequentemente sub-representadas nas estatísticas oficiais e enfrentam riscos muito superiores de violência, abuso e exploração sexual.

Oposição aponta “falhas do passado”

A medida levantou críticas imediatas na oposição. Sir James Cleverly, secretário de Estado-sombra da Habitação pelos Conservadores, acusou Burnham de ter falhado na mesma promessa quando liderava a Grande Manchester, afirmando que o agora primeiro-ministro “não fez o trabalho árduo necessário”.

Cleverly sublinhou ainda a falta de detalhes sobre a proveniência dos fundos, apesar do governo assegurar que as verbas estão totalmente cobertas pelo Ministério da Habitação. O anterior governo conservador tinha a sua própria meta de erradicar o problema das ruas até 2024, que não foi cumprida.

Os Liberais Democratas, através do porta-voz Gideon Amos, descreveram a iniciativa como um “penso rápido”, exigindo a construção de 150.000 habitações sociais anuais para evitar que as pessoas regressem à rua “quando as manchetes festivas desaparecerem”. Já Richard Tice, vice-líder do Reform UK, acusou o governo de usar os mais vulneráveis para “ganhos políticos“.

O Plano de 442 Milhões de Libras para Tirar os Sem-Abrigo Ingleses das Ruas até ao Natal

A secretária de Estado da Habitação, Angela Rayner, defendeu o histórico de Burnham. Rayner lembrou que o programa “Bed Every Night”, criado em Manchester, fornece hoje mais de 600 camas diárias, argumentando que a cidade atraiu mais pessoas no passado por ser o único local com apoio real garantido.

A realidade cruel das ruas britânicas

Dados oficiais estimam que 4.793 pessoas pernoitaram nas ruas de Inglaterra numa única noite no outono de 2025, um aumento assustador de 96% em apenas cinco anos. As organizações avisam que este número é uma subavaliação profunda, pois não contabiliza quem dorme em sofás de amigos ou em albergues temporários.

Sarah Elliott, diretora-geral da Shelter, classificou a promessa de Burnham como uma “mudança de paradigma”. Jasmine Basran, da Crisis, também saudou o anúncio, mas alertou que muitas pessoas acabam na rua assim que recebem alta hospitalar ou abandonam o sistema de acolhimento de menores.

Chloe, de 27 anos, conhece essa falha do sistema de acolhimento. A jovem de Londres dormiu escondida em parques para tentar proteger-se até ser resgatada pela Crisis. Hoje estuda cinema e acredita na promessa de Burnham.

“Geralmente, quem está na rua quer uma casa. As pessoas voltam à condição de sem-abrigo por razões financeiras ou de saúde mental. Se isso for resolvido, não há ninguém na rua que não queira algum tipo de segurança”, explicou.

A poucos quilómetros dali, Meron sobrevive numa tenda instalada num túnel no centro de Londres há dois meses. O jovem oriundo da Eritreia chegou sozinho ao Reino Unido há três anos e perdeu o teto quando o seu contrato de trabalho temporário num armazém da Amazon chegou ao fim.

“As pessoas deixam aqui o lixo. Há carros, música alta. Não é perigoso, mas não consigo dormir. Não paro de enviar currículos, mas não encontro nada”, confessou Meron, que tenciona deixar a capital. “Procuro qualquer emprego. Mas estou a concorrer para fora de Londres, porque aqui é simplesmente demasiado caro.”

Loading...
Jardim Principes